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18/06/2011

A Mudança...


Já estávamos na estrada há muito tempo, nossas carroças sofreram muito e se quebraram no trajeto, por isso também eram responsáveis pela nossa demora em nos instalarmos, pois quebravam rodas e parávamos para consertar, os animais precisavam descansar e parávamos, se alguém passava mal, também parávamos, enfim, uma infinidade de acontecimentos nos tornava mais lentos do que pudemos imaginar, embora em nossa caravana, muitos já tinham experiências em mudanças, todos tínhamos a impressão que a viagem não teria fim.

Uma dessas paradas foi provocada por um acontecimento muito alegre em nosso meio, foi o nascimento de uma menina e todo nascimento é considerado uma benção em nosso povo e, mesmo sem haver chegado ao local escolhido houve muita festa. Por esse motivo ficamos ali parados por bastante tempo esperando que a mãe e a criança pudessem retomar o caminho, pois ambos seguramente tinham sofrido com a viagem até ali e com o parto.

A próxima lua cheia chegou e só então retomamos o caminho rumo ao novo Acampamento. 

Foi uma viagem dura para todos nós, mas quando menos esperávamos, havíamos chegado.

Era um lugar lindo, uma visão estonteante para quem gosta da natureza. Tinha um rio mais vigoroso que aquele último e parecia que as águas eram também mais velozes. Havia algo especial, o rio fazia uma curva em forma de “u” e dele saia um braço de água dentro da vegetação que formava uma pequena lagoa com a água mais clara que jamais vi, havia muitas árvores de todas as alturas e troncos de todos os portes, finos e grossos, variavam de acordo com a proximidade da água. Um pouco distante dessa maravilha, havia uma pequena cadeia de montanhas que pareciam estar ali como uma proteção, como um abraço em volta desse lugar maravilhoso. O lugar era realmente indescritível, lindo e muito aconchegante.

Hoje, esse lugar pertence a uma cidade chamada Dar’a, porém para nosso povo era o paraíso e foi assim, diante daquela sublime visão que começamos a retirar as coisas dos carroções e a montar nosso novo lar.

Foi um trabalho imenso, onde todos, indistintamente se desgastaram muito, visto que foi necessário abrir uma pequena clareira entre as arvores para proceder à instalação de nossas tendas. As arvores foram mantidas, mas o mato foi carpido e o terreno, limpo. Já era tarde da noite, quando o local ficou em condições de montarmos as tendas, mas na verdade ninguém agüentaria mais essa tarefa, que foi deixada para o dia seguinte. O clima estava quente, gostoso, uma lua majestosa brilhava no céu, iluminando aquele lugar que se tornara ainda mais encantador à noite.

O dia seguinte chegou e sob as montanhas o brilho tímido do sol já anunciava uma manhã com perfil de celestial. Só então, fomos capazes que ver a real beleza. Sem dúvida alguma o lugar mais encantador que eu já vira.

O rio parecia imenso e em alguns pontos mal se via a outra margem, a curva em forma de “u” praticamente cercava o Acampamento por um lado e de outro havia uma pequena cadeia de pequenos montes que por possuir uma vegetação de grande porte (arvores muito altas) dava a impressão de serem montanhas. Na verdade estávamos em uma planície muito rica em vegetação e com muita caça. Havia também um braço do rio que adentrava em direção ao nosso Acampamento e formava uma pequena lagoa com muitos peixes. A fartura estava por toda parte e por ser terra escura demonstrava ser um ótimo lugar para o plantio de nossas ervas. Realmente o lugar mais belo e encantador que já vi.

Começamos a montar as tendas e a limpar os nossos apetrechos. Foram horas árduas de trabalho forte e muito cansativo também, mas todos nós sabíamos que independente da hora em que terminássemos nosso trabalho, naquele final de dia, haveria festa.

De repente, ouviram-se gritos e todos corremos em todas as direções para localizar a origem dos gritos que pareciam ser de uma mulher e uma criança. Alguém mais atento gritou que vinha do rio e muitos de nós correram até a margem e para surpresa geral realmente vimos ser uma mulher e um menino aparentemente um ou dois anos mais velho do que eu. Estavam em um barco sem remos encalhados em uns galhos de uma árvore grande que tombara dentro do leito do rio, mas não grande o bastante para que pudessem pular sobre ela e caminhar até a margem. O Pai de Yasmin era o nosso líder e ordenou para que alguém buscasse uma corda grossa e comprida o suficiente para alcançá-los.

A corda demorou uma eternidade, mas quando chegou papai a amarrou em sua cintura e se lançou no rio uns 50 metros acima, para que a correnteza o levasse ao ponto em que o barco estava enroscado. Assim que chegou, segurou no galho da árvore e parecia ter-se tornado estático olhando para a mulher. Demorou um longo tempo de completa inatividade e nós aqui da margem, não conseguíamos entender o motivo da demora. Foram emitidos muitos gritos para que fizesse alguma coisa, mas nada parecia retirá-lo daquela morbidez, até que um estalo no tronco principal da árvore e o conseqüente medo de perder a possibilidade de resgate, o trouxe novamente a realidade e, ele agarrou o menino, sendo que mal o colocou em seus ombros e a mulher em profundo desespero se lançou na água em sua direção, agarrando em seu pescoço. Pura questão de sorte, pois com o movimento da correnteza aliado ao impulso que a mulher dera para saltar na água, fez com que a árvore quebrasse de vez numa rachadura que tinha no caule, próximo da margem do rio e o barco com o que restava da árvore começara a descer o rio. Os homens que seguravam a corda pediram a papai que não se movesse, pois a força da correnteza contra o corpo dos três os traria para a margem, um pouco abaixo de onde estávamos. Dito e feito e o resgate foi realizado com sucesso.

Salvos, tiveram suas roupas encharcadas trocadas e foram aquecidos, assim como também papai também foi. Antes que lhes perguntássemos coisas a seu respeito e o que acontecera, para estar no rio sem remos, papai reuniu nosso povo em volta dos resgatados e contou-nos a seguinte história:

— Quando não estava ainda casado é do conhecimento de todos que muitas vezes, deixei nosso Acampamento para perambular por caminhos diversos e numa dessas viagens, encontrei Yonah, por quem me apaixonei e tivemos um caso por algum tempo. Porém, ela tinha um namorado e estava com seu casamento marcado e por não conseguir convencê-la a se juntar a nós, parti sozinho de volta ao nosso Acampamento e nunca mais a vi. Depois fui me aquietando e acabei por gostar da mulher que me havia sido prometida desde o seu nascimento e, como todos já sabem nos casamos, estamos muito felizes juntos, além do que possuímos uma linda família que muito nos orgulha.

A mulher se levantou e disse-nos:

— Esse é meu filho, Shain e é seu filho também, apontando papai. Logo que você partiu descobri que estava grávida e como não sabia onde encontrá-lo, resolvi ter meu bebê e criá-lo sozinha, com a ajuda de meus pais, porém essa gravidez revoltou minha família que me expulsou de casa. Tentei encontrar apoio em meu namorado que simplesmente me ignorou e me abandonou a minha própria sorte.

Durante o restante de minha vida, tenho procurado por diversas caravanas de ciganos sem ter obtido sucesso algum, até agora. Porém, percebo que dediquei tempo demais a sua procura, pois já constituíste uma família e certamente não me vai querer ter por perto, ainda mais com uma criança, que não poderei provar que é seu e nem que esta é uma história verdadeira. Demorei muito e assim que nos recuperarmos de toda a agitação pela qual passamos com o barco lá no rio, vamos agradecer os seus cuidados e iremos embora.

Mas o pai de Yasmin tomou a palavra e disse que se alguém tivesse algo contra, que se manifestasse naquele momento, porque ele iria convidar a mulher a se juntar ao nosso grupo, já que havia a possibilidade do menino ser um cigano legítimo e, dos nossos. Todos se calaram e nenhum som foi ouvido por algum tempo a não ser o barulho do rio e o do vento nas árvores. Com isso o convite foi consumado e a mulher acabou aceitando a hospedagem, embora tivesse comentado que seria apenas temporariamente, porém em nosso íntimo, todos nós sabíamos que seria uma junção definitiva. Foi uma decisão generosa do pai de Yasmin que acabara por poupar uma decisão extremamente difícil ao papai.

Concluída a montagem das tendas e tudo devidamente em seu lugar, foi iniciada a festa, no princípio da noite. Foi uma noite muito alegre para a maioria, mas longa e muito penosa, ao menos para mim e também para mamãe, principalmente pelo fato de que o menino era muito parecido com papai, mais parecido com ele do que eu mesmo.


Autor: Julio Roberto Santos
(Narrado pelo espírito de Hiago, o cigano)

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Conselho Mundial de Cidadania Planetária